Produzir mais alimentos não garante comer melhor

Em entrevista exclusiva ao IPSConsumo e ao Instituto Viva, Flávia Galvão Cândido, da Embrapa Alimentos e Territórios, discute como ciência e inovação podem contribuir para melhorar a alimentação dos brasileiros. A pesquisadora aborda qualidade nutricional, acesso, participação do consumidor, desperdício e políticas públicas

Resumo

  • Produzir mais não significa alimentar melhor. Em 2024, 24,2% dos domicílios brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo o IBGE.
  • A pesquisa científica precisa ir além da produtividade, considerando qualidade nutricional, acesso, sustentabilidade e redução do desperdício.
  • As necessidades dos consumidores devem orientar a inovação alimentar, levando em conta renda, hábitos, tempo disponível e condições reais de escolha.
  • Benefícios nutricionais exigem comprovação científica. Novos ingredientes e processos devem ser avaliados quanto à segurança e à qualidade das informações oferecidas ao consumidor.
  • Projetos da Embrapa aproximam ciência e realidade local, valorizando a agricultura familiar, a biodiversidade e os hábitos alimentares regionais.
  • Políticas públicas precisam incorporar os resultados das pesquisas para ampliar o acesso à alimentação saudável e reduzir desigualdades.

O Brasil está entre os maiores produtores mundiais de alimentos, mas essa capacidade não assegura uma alimentação adequada a toda a população. Em 2024, 24,2% dos domicílios brasileiros, o equivalente a 18,9 milhões de lares, enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo o IBGE.

Embora represente uma redução em relação aos 27,6% registrados em 2023, o porcentual evidencia um desafio que ultrapassa a produção agrícola. Renda, distribuição, qualidade nutricional, desperdício e condições de acesso também determinam o que chega à mesa dos brasileiros.

Para Flávia Galvão Cândido, pesquisadora da Embrapa Alimentos e Territórios, enfrentar essa realidade exige ampliar as prioridades da pesquisa científica. O aumento da produtividade continua importante, mas precisa caminhar com investimentos capazes de melhorar a alimentação e a nutrição da população.

Em entrevista exclusiva ao IPSConsumo e ao Instituto Viva, a pesquisadora explica como a Embrapa vem incorporando essas dimensões aos seus projetos e de que maneira as necessidades dos consumidores podem orientar a inovação alimentar.

Produzir mais é apenas parte da solução

A capacidade de produzir alimentos não resolve, isoladamente, os problemas de segurança alimentar e nutricional. Flávia chama a atenção para a concentração de esforços produtivos em commodities agrícolas e para a necessidade de ampliar os investimentos em pesquisas voltadas à agricultura familiar e aos sistemas locais de abastecimento.

Segundo a pesquisadora, as dificuldades de acesso também estão associadas aos preços, às perdas e ao desperdício, às desigualdades regionais e aos ambientes urbanos com oferta insuficiente de alimentos saudáveis. “Comer bem não depende apenas da disponibilidade e do acesso a alimentos saudáveis”, observa.

A pesquisadora destaca que fatores comportamentais e socioculturais precisam ser considerados para que hábitos alimentares saudáveis sejam incorporados à rotina da população.

Essa abordagem amplia o alcance da ciência. Além de desenvolver tecnologias para produzir mais, torna-se necessário compreender como os alimentos são distribuídos, comercializados, preparados e consumidos.

Na área de pesquisa em nutrição e saúde da Embrapa Alimentos e Territórios, essa perspectiva inclui aspectos econômicos, sociais, culturais e nutricionais do consumo alimentar.

Quando a inovação chega aos territórios

Uma das estratégias da Embrapa é desenvolver pesquisas participativas, planejadas a partir das demandas das comunidades e das características dos territórios.

Os projetos envolvem pesquisadores, produtores, gestores públicos e organizações da sociedade civil. As soluções são desenvolvidas considerando as condições locais e sua possibilidade de adaptação a outras regiões.

Um exemplo apresentado por Flávia é o projeto de cultivo e aproveitamento do jerimum, conhecido como abóbora, e do inhame no Nordeste. Conduzida pelos pesquisadores João Gomes e Semírames Rabelo, a iniciativa trabalha com culturas adaptadas às condições climáticas regionais e de elevado valor nutricional.

Segundo a entrevistada, o projeto fortaleceu a produção local e resultou na elaboração de um caderno de receitas para o aproveitamento integral dos alimentos. A proposta aproxima conhecimento científico, culinária regional e redução do desperdício doméstico.

Outras frentes incluem a preservação de sementes crioulas, a valorização dos alimentos da biodiversidade brasileira e o fortalecimento dos sistemas agrícolas tradicionais.

Essas iniciativas demonstram como a inovação pode considerar, simultaneamente, a produção, a cultura alimentar e as necessidades das comunidades.

O consumidor também orienta a pesquisa

Como identificar se uma inovação alimentar atende às necessidades de quem vai consumi-la? Para Flávia, compreender o comportamento das pessoas é parte do próprio processo científico. “O consumidor ocupa um papel central no planejamento das nossas pesquisas”, afirma.

A Embrapa Alimentos e Territórios utiliza testes sensoriais, pesquisas de mercado e painéis de consumidores para avaliar a aceitação dos alimentos e identificar fatores que influenciam as escolhas. Renda, tempo disponível, hábitos de compra, crenças e preferências alimentares estão entre as variáveis investigadas.

A unidade também conduz estudos sobre os determinantes do consumo de alimentos saudáveis, incluindo uma investigação voltada à população de menor renda.

Os resultados dessas pesquisas podem contribuir para compreender por que determinadas orientações nutricionais, embora cientificamente fundamentadas, encontram dificuldades para ser adotadas pelas famílias.

A questão envolve uma dimensão importante das relações de consumo: disponibilizar um produto ou uma informação não significa, necessariamente, criar condições para sua utilização.

Benefícios nutricionais precisam de comprovação

A inovação alimentar pode trazer novos ingredientes, processos e características aos produtos. Entretanto, melhorar atributos comerciais não significa, automaticamente, proporcionar ganhos nutricionais. “A melhoria da qualidade nutricional e a atratividade comercial não são objetivos opostos”, esclarece Flávia.

A pesquisadora alerta, porém, para a divulgação de supostos benefícios à saúde sem comprovação científica suficiente.

Na avaliação dessas inovações, ela considera fundamentais a consistência das evidências, os efeitos do processamento sobre o alimento como um todo e a qualidade da comunicação destinada ao público.

A Embrapa também desenvolve análises de composição nutricional e segurança de alimentos da biodiversidade brasileira, incluindo sementes crioulas, oleaginosas e Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). O conhecimento gerado pode oferecer subsídios à fiscalização, às decisões regulatórias e ao esclarecimento da sociedade.

Esse cuidado dialoga com as regras da Anvisa para rotulagem de alimentos, que estabelecem requisitos para as informações apresentadas ao consumidor.

Flávia defende que a comunicação científica alcance não apenas pesquisadores, mas também gestores públicos, profissionais de comunicação e organizações da sociedade civil. A finalidade é reduzir a distância entre o conhecimento produzido e as informações utilizadas pelas pessoas para orientar suas escolhas alimentares.

Pesquisas podem melhorar as políticas públicas

Compreender os fatores que influenciam o consumo e o desperdício também é o objetivo de uma pesquisa nacional da Embrapa Alimentos e Territórios, financiada pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). O projeto é liderado pelo analista Gustavo Porpino, com Flávia como colíder.

Segundo a entrevistada, a investigação envolve dois painéis que somam 4 mil respondentes, com atenção especial à classe C, segmento cujo orçamento sofre impacto expressivo dos preços dos alimentos. O estudo procura identificar barreiras ao consumo saudável e fatores associados ao desperdício doméstico.

Além de produzir informações sobre o comportamento das famílias, a iniciativa prevê capacitações para municípios e recomendações destinadas aos gestores públicos.

A pesquisa integra o projeto Sistemas alimentares circulares: envolvendo as cidades na transição, divulgado pela Embrapa em setembro de 2026.

A iniciativa pretende contribuir para políticas como a Estratégia Alimenta Cidades, que busca ampliar o acesso a alimentos adequados e saudáveis, especialmente nos territórios urbanos mais vulneráveis.

Flávia reconhece, entretanto, que transformar pesquisas em ações concretas depende de maior articulação entre instituições. Divergências de prioridades, burocracia e desigualdades territoriais ainda dificultam essa integração.

Três prioridades para a próxima década

Ao projetar os próximos dez anos, Flávia identifica três prioridades para a pesquisa brasileira em alimentação e nutrição.

A primeira é fortalecer sistemas produtivos inclusivos, diversificados e resistentes aos desafios climáticos, com atenção especial aos pequenos produtores.

A segunda envolve preservar a biodiversidade alimentar brasileira, valorizando conhecimentos, espécies e práticas associados às culturas tradicionais.

A terceira é ampliar a utilização da ciência na formulação, no monitoramento e na avaliação das políticas públicas, com informações que permitam identificar necessidades e direcionar investimentos nos territórios.

As prioridades mostram que o futuro da pesquisa alimentar não depende apenas do desenvolvimento de novas tecnologias. Também exige compreender as condições em que os alimentos são produzidos, distribuídos e consumidos.

A entrevista reforça uma questão central para o debate promovido pelo IPSConsumo e pelo Instituto Viva: o conhecimento científico precisa ser acompanhado de políticas públicas, segurança, informação compreensível e condições reais de acesso.

O desafio brasileiro, portanto, vai além de produzir alimentos em quantidade suficiente. Envolve transformar pesquisa e inovação em benefícios nutricionais, sociais e ambientais que possam alcançar a população.

Texto: Angela Crespo

← Voltar