Rótulo limpo ganha espaço, mas natural não é sinônimo de mais saudável
Consumidores mais atentos aos rótulos estimulam mudanças na indústria de alimentos. Movimento abre espaço para inovação, mas especialistas alertam: menos ingredientes, origem vegetal ou ausência de determinados aditivos não garantem, sozinhos, melhor qualidade nutricional
Olhar a embalagem antes de colocar um alimento no carrinho deixou de significar apenas conferir preço, marca e prazo de validade. A tabela nutricional ganhou importância e a lupa na parte frontal das embalagens passou a facilitar a identificação de produtos com altos teores de açúcar adicionado, gordura saturada e sódio.
Mas há outra parte do rótulo que começa a chamar atenção: a lista de ingredientes.
Um estudo de base populacional realizado em Campinas (SP), com 1.792 adolescentes e adultos, constatou que 49,4% tinham o hábito de verificar os rótulos dos alimentos. Entre os adultos, o porcentual chegava a 53,7%. Data de validade, calorias, sódio e gordura estavam entre as informações mais procuradas. A pesquisa foi publicada em 2023 nos Cadernos Saúde Coletiva,.
Mais recentemente, outro levantamento ajuda a mostrar uma preocupação maior com aquilo que vai para o carrinho. No estudo Estilos de Vida 2024, da NIQ Homescan, 86% dos consumidores brasileiros participantes afirmaram ter incorporado pelo menos um hábito mais saudável à rotina. Outros 51% disseram procurar produtos com fibras e vitaminas em suas compras frequentes e 45% afirmaram ter reduzido o consumo de produtos industrializados.
É nesse ambiente que produtos com formulações mais simples e mudanças nos tipos de ingredientes utilizados passaram a encontrar espaço entre consumidores interessados em compreender melhor aquilo que comem. O movimento também envolve a escolha e a substituição de determinados aditivos — que são um tipo de ingrediente e cumprem funções tecnológicas nos alimentos, como conferir sabor, cor, aroma, textura e outras características sensoriais.
É nesse contexto que ganha espaço o movimento conhecido internacionalmente como clean label, ou rótulo limpo. Mais do que simplesmente reduzir o número de ingredientes, a discussão envolve quais ingredientes são utilizados na formulação e como eles são apresentados ao consumidor.
Mas há uma questão que precisa acompanhar essa mudança: uma lista menor ou formada por ingredientes mais familiares significa necessariamente um alimento melhor?
A resposta da ciência é: não necessariamente.
Afinal, o que significa rótulo limpo?
Clean label não deve ser entendido como uma classificação científica capaz de separar automaticamente alimentos melhores e piores.
O Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) já identificava, no estudo Brasil Ingredients Trends 2020, mudanças na maneira como consumidores se relacionavam com os ingredientes. Entre elas estavam a rejeição a ingredientes percebidos como de risco e a produtos muito processados com itens desconhecidos, além do interesse por ingredientes associados a valor nutritivo ou alguma funcionalidade.
O Ital situa o clean label nesse cenário e relaciona o conceito a fatores como transparência das informações e mudanças na formulação dos produtos. Nessa discussão, importa não apenas a quantidade, mas também o tipo de ingrediente utilizado, inclusive os aditivos empregados para desempenhar funções tecnológicas nos alimentos.
A simplicidade aparente do conceito, entretanto, esconde uma discussão bem mais complexa.
Natural e saudável são coisas diferentes
Mário Roberto Maróstica Júnior, professor titular da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), chama atenção para o próprio significado da palavra “natural”.
Não basta um ingrediente ter origem em uma fruta, vegetal ou outra matéria-prima encontrada na natureza para que possa ser automaticamente enquadrado dessa maneira.
Ingredientes podem ser obtidos por processos físicos, químicos, enzimáticos ou biotecnológicos diferentes. A origem da matéria-prima é apenas uma das características a serem consideradas.
“Quando falamos em clean label, é importante não confundir a percepção que o consumidor tem de ‘natural’ com uma classificação científica ou regulatória”, afirma Maróstica.
A distinção ajuda a desmontar uma associação bastante comum na hora da compra: se é natural, é mais saudável.
“Naturalidade e saudabilidade são conceitos distintos”, resume o pesquisador.
Segundo ele, a origem natural de um ingrediente não garante benefício à saúde. Da mesma maneira, o fato de um ingrediente ter sido obtido por um processo tecnológico não permite concluir que seja prejudicial.
Para atribuir um benefício à saúde, é preciso considerar evidências científicas, composição, quantidade consumida, biodisponibilidade e os resultados de estudos adequados.
As listas de ingredientes podem ser complexas
O interesse por formulações mais simples também precisa ser compreendido diante da composição dos produtos disponíveis no mercado.
Um estudo que analisou 9.856 alimentos e bebidas embalados comercializados em supermercados brasileiros da FAO-Agris, constatou que 20,6% não continham aditivos alimentares, enquanto 24,8% apresentavam seis ou mais. Em um único produto foram encontrados até 35.
Entre as categorias mais frequentes estavam aromatizantes, presentes em 47,1% dos produtos analisados, corantes, em 27,8%, e estabilizantes, em 27,6%.
Os números ajudam a entender por que uma lista mais curta e aparentemente mais simples pode ser atraente para quem está diante da prateleira. Mas eles não significam que a presença de um aditivo, isoladamente, transforme um alimento em uma escolha nutricionalmente pior.
Essa diferença é fundamental.
Menos ingredientes também não significa necessariamente melhor
Para a nutricionista Geórgia Castro, presidente do Instituto Viva, a qualidade de um alimento precisa ser avaliada pelo conjunto de sua composição e por seu perfil nutricional, e não apenas pelo grau de processamento ou pela presença ou ausência de determinado ingrediente.
Um produto pode apresentar uma lista curta e, ainda assim, conter quantidades elevadas de açúcar, sódio ou gordura saturada. “Outro pode utilizar ingredientes necessários para sua estabilidade, conservação ou outras funções tecnológicas”, completa.
Maróstica chega à mesma conclusão ao analisar as reformulações associadas ao clean label.
“Retirar um ingrediente artificial não significa automaticamente melhorar o valor nutricional do produto. É necessário avaliar o que entrou no lugar dele.”
Para o pesquisador, a substituição pode representar uma estratégia de reformulação e, ao mesmo tempo, abrir espaço para inovação.
Por isso, ele define o clean label como uma oportunidade de inovação, mas não uma garantia de melhoria nutricional.
Frutas e vegetais abrem um campo para inovação
Se origem vegetal não significa automaticamente maior qualidade nutricional, isso não diminui o potencial de frutas e vegetais para o desenvolvimento de novos ingredientes.
Frutas e vegetais oferecem uma enorme diversidade de moléculas que podem apresentar propriedades nutricionais e tecnológicas. E o Brasil possui uma vantagem particular nesse campo: sua biodiversidade.
Na Unicamp, o grupo de Maróstica investiga frutas brasileiras e seus subprodutos como fontes de ingredientes. Entre as matérias-primas estudadas estão cambuci, maracujá-da-caatinga, jabuticaba, cacau e cupuaçu.
Parte das pesquisas avalia inclusive componentes que normalmente seriam descartados.
Transformar uma fruta ou planta em ingrediente para utilização industrial, porém, exige muito mais do que identificar uma substância interessante. É necessário estudar composição, segurança, estabilidade, funcionalidade tecnológica, eficácia biológica, produção em escala e viabilidade econômica.
Segundo Maróstica, projetos desenvolvidos na Unicamp nessa área já resultaram em patentes licenciadas e produtos que chegaram ao mercado.
Há também a possibilidade de unir inovação e sustentabilidade. O pesquisador cita trabalhos para obtenção de aromas naturais a partir da fermentação de resíduos agroindustriais. Nesse caso, a tecnologia permite aproveitar materiais que seriam descartados e, ao mesmo tempo, responder à procura da indústria por novos ingredientes.
Quando a embalagem informa e quando ela sugere mais do que diz
Se para a nutrição a discussão passa pela avaliação do alimento como um todo, para as relações de consumo surge outra pergunta: o que o consumidor entende a partir das palavras escolhidas para apresentar aquele produto?
Para Juliana Pereira, presidente do IPSConsumo e ex-secretária nacional do Consumidor (Senacon), informação e capacidade de compreensão precisam caminhar juntas. O consumidor deve ter condições de entender o que está comprando e utilizar essas informações em sua decisão.
No clean label, isso ganha relevância porque determinadas palavras carregam significados que podem ultrapassar a característica objetiva que está sendo informada.
Maróstica considera esse um dos maiores desafios do movimento.
Segundo ele, o consumidor tende a associar “natural” a “saudável”, “vegetal” a “melhor” e “sem conservantes” a “mais seguro”.
Essas associações não são necessariamente verdadeiras.
“Um alimento pode ser natural e apresentar alto teor de açúcar, gordura saturada ou sódio. Da mesma forma, um produto pode não conter determinado conservante e ainda assim ter uma composição nutricional pouco interessante”, explica.
É aí que surge uma fronteira importante para as relações de consumo: uma coisa é comunicar uma característica do produto; outra é a conclusão que o consumidor tira dessa informação.
Ciência e indústria se aproximam
O movimento também está criando relações entre universidades e empresas.
Segundo Maróstica, demandas da indústria chegam hoje à universidade na forma de perguntas científicas: é possível substituir determinado ingrediente? Existe uma fonte natural capaz de desempenhar determinada função tecnológica? Um subproduto pode ser transformado em ingrediente? O benefício atribuído a ele pode ser comprovado?
“Isso cria uma ponte muito interessante entre ciência, inovação e mercado”, afirma.
Para o Instituto Viva, essa aproximação é fundamental para que o setor produtivo consiga incorporar o conhecimento científico mais avançado ao desenvolvimento de alimentos e ingredientes. O Instituto busca contribuir para essa conexão por meio de projetos desenvolvidos junto às universidades, como a Unicamp, aproximando ciência, inovação e setor produtivo.
Nos próximos dez anos, Maróstica espera uma presença crescente de ingredientes provenientes de frutas, vegetais, microrganismos e subprodutos da indústria. Ele também prevê maior integração entre ciência dos alimentos, nutrição, microbiota intestinal, metabolismo e tecnologia.
A sustentabilidade deverá ganhar peso nesse desenvolvimento. Além da função de um novo ingrediente, será necessário considerar a origem da matéria-prima, os recursos utilizados na produção, o destino dos resíduos e seu impacto ambiental.
Como ler um rótulo sem cair em atalhos
A lista de ingredientes pode ajudar o consumidor a conhecer melhor aquilo que compra. O problema começa quando uma única característica passa a representar o produto inteiro.
A recomendação de Maróstica é olhar o conjunto.
Na tabela nutricional, vale observar especialmente açúcares adicionados, sódio, gorduras saturadas, fibras e valor energético, considerando também o tipo de alimento.
Depois, é importante analisar a lista de ingredientes. A ordem em que aparecem fornece informações sobre a composição do produto.
A rotulagem frontal também deve fazer parte dessa leitura, assim como as alegações destacadas na embalagem.
Alegações e informações destacadas na embalagem devem ser interpretadas dentro do conjunto de informações do rótulo e não isoladamente como indicativo de que um alimento é saudável.
É nesse ponto que educação alimentar e educação para o consumo se encontram.
O movimento do rótulo limpo pode estimular inovação, levar ao desenvolvimento de novos ingredientes e responder ao desejo legítimo das pessoas de compreender melhor aquilo que compram.
Mas uma embalagem mais simples não elimina a necessidade de informação. Ao contrário.
Quanto mais sofisticadas se tornam as opções disponíveis, maior é a importância de saber interpretá-las.
A regra diante da prateleira continua sendo olhar o alimento inteiro, e não uma única palavra estampada na embalagem.
Texto: Angela Crespo
